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TUA IMENSA TORCIDA É BEM FELIZ. E EU TAMBÉM.

O Vasco foi o time que herdei, que me irrita, que me orgulha. E que não me deixa esquecer de onde eu venho


Tem coisa na vida que a gente não escolhe, só herda. Do meu pai, herdei duas coisas: o Vasco da Gama e o colesterol alto. Os dois exigem acompanhamento constante e, de vez em quando, fazem a gente passar mal. Feliz ou infelizmente, tomo remédio para apenas um.


Meu pai era vascaíno doente. Ele está ótimo, só não é mais doente pelo Vasco. Se curou. Mas durante muito tempo, o clube ocupava muito da rotina dele. Via jogo na TV, e quando não passava, ouvia no radinho de pilha (eram os anos 1990). Passada essa época, sempre assinou Premiere. Até há pouco tempo, lia notícia do Vasco todo dia na internet. É sócio estatutário do clube. Chegou a viajar algumas vezes para ver jogo, mesmo morando já há metade da vida dele longe do Rio. Ele sempre deu um jeito de estar perto.


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Foi nesse ambiente que eu cresci. Só que a primeira vez que ele me levou a um jogo, em 1999, acabou virando um marco estranho. Vasco e São Paulo no Morumbi, vitória nossa por 3 a 1, gol do Romário, e eu, com oito anos, apareci até na televisão. O Vasco ganhou, parecia que o final da história era alegre, mas a pancadaria que veio depois traumatizou meu pai. Ele nunca mais teve coragem de me levar pro estádio, enquanto eu era criança, e a partir daí fiquei anos vivendo o futebol só em casa.


Mudei do Rio de Janeiro para São Paulo pequena, e logo meu jeito de falar virou motivo de piada. Era sempre “Thaix”, “bixcoito”, “fala ‘exqueci o ixqueiro na exquina da excola’”. No meio disso, vinha também o “Vaixco”. Com o tempo, o Vasco acabou colado a esse “s” puxado, que hoje aparece bem menos no meu sotaque, mas volta com força quando me perguntam para que time eu torço.


Minhas experiências de arquibancada foram poucas. Além daquele jogo no Morumbi em 1999, só voltei a ver o Vasco em 2020, na final da Copinha contra o São Paulo, que terminou em derrota e um banho de chuva. O resto da vida, acompanhei muito mais pela TV e pelo celular, muitas vezes no meio dos rolês. Esse ano vi o Vasco da Gama perder pro Corinthians num bar, no samba, com um monte de corinthianos me perguntando em quanto estava o jogo e vindo me cumprimentar pela vitória, quando acabou. E eu, irritada, tendo que explicar: “mas eu sou vascaína”.


Só conheci São Januário, a casa do Gigante, mês passado, em julho de 2025. Era um Vasco e Grêmio, comecinho do segundo turno do Brasileirão. Teve gol anulado, time saindo na frente e depois tomando o empate, juiz ladrão, bandeiras de protesto e torcida indo embora xingando a diretoria. Tive a experiência completa, só faltaram os 3 pontos. Mas o estádio cheio, a torcida cantando sem parar e a sensação de, finalmente, estar em casa foram incríveis. Saí de lá com uma foto na fachada tombada e até arrisquei o sinal da Força Jovem - que aprendi com meu pai, né?!


O Vasco da Gama também atravessou a minha vida pelo carnaval. Eu cresci vendo os desfiles pela televisão, era um dos poucos dias em que podia ficar acordada até tarde. Em São Paulo, as torcidas organizadas dos times tinham suas próprias escolas de samba: Gaviões da Fiel, Mancha Verde, Independente Tricolor... E eu ficava frustrada porque os times dos meus amigos estavam lá, na avenida, e o meu não. Até que, no centenário do clube, a Unidos da Tijuca homenageou o Vasco. Foi quando escolhi minha escola de samba, em vez de herdar o Salgueiro do meu pai. Mês passado, em São Januário, cantei “sou Vasco da Gama, meu bem, campeão de terra e mar” junto com a torcida e fechei um ciclo. E, claro, é impossível tentar acompanhar “Anna Júlia” sem trocar o refrão por “Vasco da Gama”.


Hoje, minha relação com o clube é de resiliência e orgulho. O Vasco exige sangue frio de quem torce. Sangue de barata, até. Mas também carrega uma das histórias mais bonitas do futebol brasileiro. É a camisa mais bonita do mundo, que esses tempos está até na moda. Tem ídolos como Romário e Edmundo, que eu admiro (em campo) apesar de todos os defeitos. Tem dores recentes, daquelas que todo vascaíno lembra bem, mas que nem vale a pena listar. Pra quê falar disso agora? E tem alegrias, como o 6 a 0 do último domingo sobre o Santos, que até fez o Neymar chorar.


O presidente Pedrinho disse uma vez que a torcida do Vasco é zero exigente, que só quer um time que lute. Eu concordo com ele. No fim, carregar a Cruz de Malta no peito é um exercício constante de raiva, paciência e pertencimento. O sentimento não pode parar.


 
 
 

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