A INSPIRAÇÃO VEM DO GELO

Como seleção de hóquei no gelo do EUA conquistou melhorias para a modalidade e inspirou a luta da seleção de futebol


No meu universo, muito tem se falado sobre o “equal pay” recém conquistado pela Seleção de Futebol Feminino dos EUA. Mas, você sabia que elas se inspiraram na luta de uma outra seleção do mesmo país?

Em março de 2017, a seleção de Hockey norte-americana tornou pública sua decisão de boicotar o Mundial da modalidade caso a USA Hockey (órgão correspondente ao que chamamos de “Confederação” por aqui) não cumprisse com os seus pedidos de melhorias no tratamento dado ao hockey feminino. Faltavam apenas duas semanas para o início do torneio, mas as conversas entre ambas as partes já aconteciam há mais de 1 ano.


Para quem não sabe, – e eu mesma não sabia por nunca ter acompanhado hockey – Estados Unidos e Canadá são as duas maiores potências da modalidade. Nos últimos anos, a audiência nos ginásios americanos para assistir às partidas da NHL superou os números da NBA. A não presença da seleção no mundial representava muita coisa – e, certamente, muito dinheiro.


Obviamente, a USA Hockey tinha a opção de convocar outras atletas e garantir presença na competição. Afinal, com tantas jogadoras por aí sedentas por uma vaga na seleção, seria fácil repor as “briguentas”. De fato, eles tentaram, mas não conseguiram. Toda a comunidade do hockey feminino espalhada pelos quase 10 mil km² do país estava unida em prol de algo maior.


Mas não pense que essa união nasceu do nada ou por sorte. Ela foi fruto de um trabalho incansável de um grupo de atletas que, cientes da necessidade de um esforço gigante para conseguir mudanças relevantes, estavam abrindo mão de fazer aquilo que mais almejavam na vida. E, ao demonstrar esse espírito altruísta, de quem pensa no coletivo acima da sua carreira e vontades individuais, inspiraram um país inteiro a lutar com elas.


Nós fizemos inúmeras ligações, todas nós. Eu sentia que precisava ligar para cada menina que jogasse hockey nos Estados Unidos e para seus treinadores” - Meghan Duggan – atacante, campeã de sete mundiais e capitã do ouro olímpico em 2018.

Eu lembro de escutar essa história boquiaberta. Foi em 2018, no espnW Summit na California. No palco à minha frente as atletas eram entrevistadas por Julie Foudy, ex-capitã da Seleção de Futebol dos EUA e hoje jornalista reconhecida por dar visibilidade ao esporte praticado pelas mulheres. Ela sabia bem quão corajosa era a atitude que aquele time havia tomado.


“Nós atletas não treinamos para jogar amistosos. Nós treinamos para jogar Mundiais, Olimpíadas. Abrir mão disso é algo muito sério."

Dias antes do Mundial, uma conversa envolvendo os advogados de várias atletas e a USA Hockey parecia antever o momento de glória. A mais nova das ali entrevistadas, Kendall Coyne, contou que saiu da sala otimista. No entanto, no dia seguinte, souberam que outras atletas estavam recebendo ligações para uma convocação de última hora. Era difícil não desistir, mas elas precisavam resistir.

O final dessa história é fácil de encontrar no Youtube – com o acordo finalmente selado entre atletas e a USA Hockey, se consagraram campeãs mundiais, após uma final eletrizante contra o Canadá, e levaram para casa uma conquista muito maior do que um troféu e medalhas.


A mensagem que ficou para as americanas e que hoje compartilho pois gostaria que também ficasse para nós brasileiras é sobre ser agente de mudança e sobre acreditar na força do coletivo. Se elas fizeram, nós também podemos fazer.


"Lutem pelo que vocês acreditam ser o certo, pelo que sabem ser o certo, e não recuem. Nós nos mantivemos juntas, sabíamos o que era o certo, e criamos a mudança” - Coyne.

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