UM PASSO PARA FRENTE, DOIS PARA TRÁS

Atualizado: 22 de jul.


Foto: Victor Lannes - CBF

 

Semanas atrás, FIFA e Rede Globo anunciaram que, pela primeira vez na história, teremos duas Copas do Mundo Femininas transmitidas em sequência por um canal aberto de televisão. Depois do sucesso de audiência na primeira edição, nada mais justo. Quem acompanha sabe muito bem que o espaço conquistado pelas mulheres nos últimos anos tem total relação com o que aconteceu no verão francês de 2019.


Porém, precisamos compreender que esta evolução tem ligação com a mudança de pensamento de departamentos comerciais das empresas que estão envolvidas com o futebol feminino. A busca por novas consumidoras foi a principal motivação para que houvesse uma melhora no investimento e na forma de se relacionar com as mulheres dentro do futebol em todos os aspectos. Além disso, não podemos deixar de lado o fato de que muitos pacotes vendidos pelas grandes entidades do futebol, como FIFA e UEFA, obrigam a transmissão de eventos considerados por eles menores, como os torneios de base e sim, os principais torneios de futebol feminino.


Longe de mim jogar um balde de água fria na importância de termos as transmissões dos jogos na maior emissora do país, mas na minha opinião, ter os jogos da seleção feminina em uma Copa do Mundo transmitidos em TV aberta deveria ser tratado como algo óbvio, nada mais do que uma obrigação. Repito, sei bem que a realidade é outra e que temos que comemorar, pois isso ajudará demais a modalidade. O ponto é que não podemos depender apenas disso para o seu crescimento e ganho de espaço nas grades de TV ou nas coberturas jornalísticas.


Pois se a Elite do Futebol Feminino vem ganhando espaço, não podemos falar o mesmo dos eventos de base. Depois de assistirmos nossas seleções sub17 e sub20 ganharem os torneios continentais e apresentarem um nível de futebol que nos deixou bem empolgados com o futuro, ficamos a ver navios com as disputas dos Campeonatos Brasileiros das mesmas categorias. Não fossem os pais, colegas de algumas jogadoras ou a cobertura dos clubes participantes não teríamos praticamente nenhum registro do que acontece nas competições de base do país.


Este tipo de descaso tem diversos culpados, mas o principal deles é a CBF, que simplesmente não fez esforço algum para que estes jogos fossem transmitidos da maneira mais básica possível, algo semelhante ao que pode ser visto nas transmissões da EURO Sub17 por exemplo. A impressão que ficou durante o Brasileiro sub17 é de que as finais só foram transmitidas depois de muita pressão das torcedoras e de pessoas que acompanham o futebol feminino mais de perto.


A não transmissão destes torneios tira das principais partes envolvidas no espetáculo, atletas e comissões técnicas, a chance de apresentarem seu trabalho para o mundo. Com os jogos televisionados ou exibidos em alguma plataforma de streaming, ficaria muito mais fácil de se analisar as partidas, de acompanhar as atletas que estão surgindo e, principalmente, ampliar o espaço do futebol feminino em todos os tipos de mídias ou redes sociais. O que poderia ser uma bola de neve de oportunidades que ajudaria demais a espalhar a mensagem do crescimento do futebol feminino tornou-se um círculo vicioso de um questionamento repetitivo: não há exibição por não existir apoio e de não existir apoio pois não há exibição.


Federações, Clubes e Grupos de Mídia precisam buscar uma forma de aumentar a cobertura do Futebol Feminino em todas as suas frentes e não apenas no topo da pirâmide. É muito legal ver as pessoas se esforçando para gerar vídeos e conteúdos de forma amadora para que todos possam acompanhar o que está acontecendo nas competições, mas isso não pode ser romantizado. Estes três pilares citados acima são peças fundamentais para o crescimento da modalidade e não ver nenhuma atitude deles para que as suas principais competições sejam acompanhadas com o mínimo de estrutura em seus canais é algo desanimador.


Está mais do que na hora de acabar com este descaso com quem tem feito a base e a estrutura para sustentar a elite do futebol feminino. Temos uma geração incrível surgindo que com certeza revolucionará a forma de se jogar por aqui, mas ela está escondida de todos nós por pura falta de um esforço para que tenham seus trabalhos valorizados e sirvam de incentivo para novas meninas se sentirem confiantes e buscarem o mesmo sonho.


Para o futebol feminino seguir seu processo de evolução não bastam as atletas ou as pessoas que trabalham dentro de campo buscarem aprimoramento. É preciso que quem comande todo o sistema acompanhe essa evolução, servindo de impulso na continuidade de tudo que tem sido construído e conquistado nos últimos anos.


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