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UM DRINK, DUAS COPAS E VÁRIAS HEROÍNAS: A HISTÓRIA DAS COPAS MARTINI & ROSSI - PARTE I

Houve um tempo em que a bebida que patrocinava eventos esportivos, além dos tradicionais, não era uma marca de energéticos e sim, uma de bebidas alcoólicas italiana. Entre esses eventos, as primeiras competições intercontinentais de seleções de mulheres da história.

A primeira Copa do Mundo de mulheres aconteceu em 1991, 61 anos depois da primeira competição dos homens. O que poucos falam é que no final da década de 60 e início da década de 70, mulheres aventureiras participaram dos primeiros torneios intercontinentais de seleções.


Naquela época, as grandes federações e confederações pouco falavam sobre a participação ou envolvimento das mulheres no futebol. Na cabeça deles, a ideia de mulheres jogando futebol não passava de um evento circense que servia para entreter pessoas curiosas em verem, na cabeça deles “pessoas do sexo frágil disputando um esporte viril”.


Se o conservadorismo tomava conta de grande parte do mundo, na Itália diversos empresários viam a participação da mulher no futebol como uma oportunidade de expansão da modalidade e mais uma possível fonte de receita. Foram eles os responsáveis por organizar o primeiro torneio de seleções da Europa em 1969, que foi considerado um sucesso na época. Este sucesso fez com que eles criassem a FIEFF – Federazione Internazionale e Europea di Calcio Feminille – uma instituição de seleções nacionais femininas sem nenhuma filiação a UEFA ou a FIFA que contava com um advogado como presidente e que tinha em alguns cargos de liderança executivos da empresa de bebidas Martini & Rossi, que na época apoiavam diversos esportes, como o automobilismo e o ciclismo e que, empolgados com esta “nova modalidade” que surgia, praticamente financiavam os torneios da FIEFF. Este é o contexto com que a primeira Coppa del Mondo Femmenile, ou como ficou conhecida, Martini Rosso Cup foi organizada.

 

AH, A ITÁLIA...


Seis cidades foram escolhidas para sediar as seleções: Genoa, Bologna, Milão, Bari, Salerno e Nápoles. Das primeiras seleções anunciadas para disputar o torneio, quatro delas desistiram da participação – entre elas o Brasil, que no momento vivia uma ditadura militar, tinha uma lei que proibia a prática da modalidade por mulheres e claro, por meio da CBD rejeitou imediatamente o convite. Com isso Alemanha Ocidental, México, Áustria e Suíça se juntaram a Dinamarca, Checoslováquia, Inglaterra e a dona da casa Itália para disputar a competição.


Aliás, vale destacar que em vários países participantes a prática ou era proibida por lei como no Brasil, ou não tinha suporte algum por parte das federações, fazendo com que as delegações tivessem que custear as viagens e hospedagens para que seguissem no sonho de representarem o país na competição.


O torneio já começa com uma polêmica no seu sorteio. Na primeira vez que definiram os confrontos, a Itália enfrentaria a Dinamarca na semifinal, o que desagradou demais os patrocinadores do evento, que sonhavam com esse confronto na final. Outro sorteio foi feito, revoltando os outros participantes e desta vez tudo seguiu como os organizadores queriam e o chaveamento definiu que as duas seleções se enfrentariam apenas na final.


Semanas antes do torneio iniciar surge outro imprevisto: a seleção da Checoslováquia, única nação do lado esquerdo da “cortina de ferro” que participaria da competição, tem problema com os vistos das atletas e retiram a sua participação do torneio. Com isso, Alemanha, Inglaterra e Dinamarca formaram um grupo que jogou no norte da Itália e México, Áustria, Itália e Suíça se enfrentaram na região sul.


No “triangular” do Norte, Dinamarca e Inglaterra venceram a Alemanha Ocidental e seguiram para a semifinal. Do outro lado, o México da artilheira Alicia Vargas, goleou a Áustria por 9 a 0 e a Itália, com certa dificuldade, passou pela seleção da Suíça ao vencer por 2 x 1.


Nas semifinais, dois grandes confrontos. A Dinamarca confirmou seu favoritismo e venceu por 2 x 0 a seleção inglesa. Já no confronto das artilheiras, Elena Schiavo da Itália e Alicia Vargas do México. A jogadora do Real Torino superou a atacante do Guadalajara marcando dois gols e levando a seleção da casa para a desejada final contra a forte seleção dinamarquesa.

Elena Schiavo - Capitã e artilheira da Itália | Foto: Popperfoto/Getty Images

Antes da final, a decisão do terceiro lugar. O confronto foi vencido pela seleção mexicana que era formada por jogadoras que disputavam a Liga América. A equipe foi a sensação do torneio e chamou muita a atenção pela forma física das jogadoras, mérito do trabalho de José Morales, técnico da equipe. Há relatos de que o Morales encontrou um conservatório próximo ao hotel, conversou com as freiras e conseguiu que as jogadoras treinassem no jardim do local todos os dias, rigorosamente às sete da manhã. Ao que tudo indica, o esforço deu resultado e a vitória por 3 x 2 sobre a seleção inglesa coroou este trabalho.

 

A GRANDE FINAL


A final, que aconteceu no dia 15 de julho de 1970, uma noite fria de uma quarta-feira, reunia as mesmas seleções que fizeram a final do Campeonato Europeu de Seleções seis meses antes, que terminou com vitória italiana por 3 a 1. A seleção italiana era formada por jogadoras da Serie A italiana, torneio bem estruturado e que foi considerado a liga de mulheres mais forte dos anos 70 e 80 na Europa. Já a seleção dinamarquesa, era toda formada pela equipe do Boldklubben Femina, fundado em 1959 e patrocinado pela revista FEMINA, que na época sempre dava espaço a mulheres praticantes de diversos esportes em suas edições.


Quando a bola rolou, a superioridade dinamarquesa desde o início do jogo foi premiada com um gol de Østegard Hansen. A Itália teve a chance de empatar em uma cobrança de pênalti, mas ela foi desperdiçada por Elena Schiavo. No segundo tempo a Dinamarca continuou mandando no jogo e fez o segundo gol com Maria Sevicikova, jogadora nascida na Checoslovaquia e que se refugiou na Dinamarca, assim como a meio-campista Java Mandikova. Aliás, a participação das duas atletas gerou diversos questionamentos de seleções adversárias, que buscaram por anulação das partidas, mas não tiveram sucesso.


Após o apito final, grande parte dos 40 mil torcedores (número não oficial, mas presente em diversos jornais da época) do Stadio Comunalle ficou no estádio para ver a seleção dinamarquesa, vestida de Milan – já que a delegação perdeu os uniformes antes da final - receber o troféu inspirado na Deusa da Vitória Niké das mãos de Dr. Lucci, advogado e presidente da FIEFF.

Seleção dinamarquesa celebra a conquista vestida de AC Milan | Foto: Popperfoto/Getty Images

O torneio, mesmo com diversos questionamentos por parte de algumas delegações participantes, foi considerado um sucesso pelos executivos da marca patrocinadora da competição. Embalados pelo resultado positivo para a Martini & Rossi e pela empolgação do povo mexicano com a Copa do Mundo de homens e a seleção mexicana de mulheres, eles começaram a organizar a segunda edição bem maior antes mesmo da capitã erguer a taça.

Mas isso fica para a próxima semana.

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